Manual de sabotagem dos EUA revela estratégias de guerra híbrida e influência no cotidiano
Um manual de 1944, elaborado pelo Serviço de Serviços Estratégicos dos Estados Unidos — antecessor da CIA —, revela táticas de sabotagem que continuam atuais na guerra híbrida contemporânea. Distribuído a países aliados durante a Segunda Guerra Mundial, o documento traz instruções sobre como cidadãos comuns podem sabotar esforços inimigos de forma discreta e eficaz.
A história por trás do Manual de Sabotagem Simples
Intitulado Simple Sabotage Field Manual (Manual de Sabotagem Simples de Campo), o material de 32 páginas foi criado para preparar cidadãos que infiltrados em países ocupados pelos nazistas pudesse atuar contra o inimigo de dentro. Assinado pelo oficial William Donovan, que comandava o departamento de inteligência dos EUA, o manual tinha como objetivo “empacar” os esforços nazifascistas por meio de ações aparentemente inofensivas.
O documento explica diferentes formas de sabotage, incluindo aumentar procedimentos burocráticos, criar confusão no ambiente de trabalho, fomentar incêndios ou obstruir sistemas essenciais — estratégias que permanecem relevantes na atualidade, dentro do conceito de guerra híbrida.
Guerra híbrida e táticas modernas
Segundo o cientista político Leonardo Bandarra, especialista na área, “a estratégia dos EUA na Segunda Guerra envolvia misturar métodos militares e não militares, incluindo campanhas de desinformação, ações cibernéticas e terrorismo”. Essas táticas são exemplos do que hoje se chama guerra híbrida, uma combinação de ações convencionais e assimétricas, procurando manter a ambiguidade entre guerra e paz.
O historiador Victor Missiato avalia que a complexidade das batalhas na segunda metade do século XX levou à evolução de táticas de espionagem, sabotagem e guerra psicológica, permitindo uma atuação mais diversificada tanto no front quanto no cotidiano. Para Hugo Tisaka, fundador da NSA Global, o manual reforça a ideia de “uma ação de guerra psicológica” amplamente utilizada em conflitos atuais.
Semelhanças com ações de guerrilha e sabotagem hoje
Especialistas apontam paralelos entre o manual de 1944 e o Manual do Guerrilheiro Urbano de 1969, elaborado por Carlos Marighella, que orientava guerrilheiros de esquerda no Brasil. Ambos enfatizam estratégias de sabotagem indireta, infiltração e ações capazes de gerar prejuízo ao inimigo por meios aparentemente simples.
O documento sugere que cidadãos comuns usem ferramentas do dia a dia — velas, linha, lixo ou objetos em banheiro e instalações — para causar danos ou criar confusão, muitas vezes de forma invisível ou indireta. Além de orientar sobre atividades de sabotagem, o manual descreve ações para desorganizar sistemas de transporte, comunicação, produção e até mesmo incendiar instalações com recursos acessíveis.
Aplicações no ambiente de trabalho e estratégias de disfunção
Um destaque do manual é a instrução de aumentar a burocracia e criar obstáculos no cotidiano laboral, como prolongar processos, rediscutir decisões, atrasar tarefas ou dificultar a comunicação. Essas ações visam diminuir a produtividade e gerar frustração, criando um ambiente de disfuncionalidade intencional — uma estratégia que, na prática, pode parecer com condutas ineficientes no mundo corporativo atual.
Para o executivo Rafael Catolé, “o manual é a antítese das boas práticas empresariais, que buscam racionalidade, transparência e eficácia. Muitas empresas acabam internalizando esse tipo de sabotagem invisível ao adotar processos burocráticos exagerados ou dificultando a inovação”.
Impacto e reflexões atuais
O documento revela como a guerra híbrida se infiltrou na rotina cotidiana, mostrando que estratégias de desinformação, manipulação e sabotagem podem estar mais próximas do que parecem. Segundo Bandarra, “a ampliação de procedimentos lentos, a criação de confusões e obstáculos são táticas clássicas que, aplicadas hoje, podem comprometer setores inteiros, desde empresas até instituições públicas”.
O manual serve como um alerta para a necessidade de vigilância contra ações que, disfarçadas de rotina, podem enfraquecer organizações, governos e até países inteiros — colocando em questão a distinção entre guerra e paz na era contemporânea.
Para ler a matéria completa, acesse: g1.globo.com
Com informações do Jornal Diário do Povo
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