Argentina: inflação impulsiona venda de bens pessoais na informalidade

Em Villa Fiorito, bairro nos arredores de Buenos Aires, a crise econômica aprofundada no país faz com que muitas famílias recorra à venda de bens pessoais e produtos de segunda mão para conseguir fechar o mês. Nesta manhã ensolarada, vendedores ambulantes estendem mantas para expor roupas, eletrônicos desmontados, revistas antigas e alimentos, em uma feira que cresce a cada dia.

Vendas informais crescerem em meio à crise e à inflação

Operando sob grande pressão econômica, cerca de 39% da população argentina está na informalidade, segundo dados de pesquisadores locais. “Muitos vendem o que têm ou o que encontram na rua para pagar contas ou comprar alimentos”, explica Guillermo Oliveto, economista. A tentativa de manter o sustento leva moradores a recorrerem sobretudo às redes sociais e às feiras de rua, em uma lógica de sobrevivência que, segundo especialistas, se intensificou com o governo de Javier Milei.

Crise, endividamento e dificuldades

Nos últimos dois anos, apesar de Milei afirmar ter controlado a inflação, o país enfrenta retração nos setores de construção, comércio e indústria — principais geradores de empregos. Segundo o centro de análise econômica IETSE, nove em cada dez famílias estão endividadas, com 88% dessas dívidas contraídas em 2024 e 2025. Uma grande parcela do endividamento se destina à compra de alimentos, pois muitos só conseguem pagar as contas no meio do mês.

“Muitas pessoas se endividam para comer ou tentar abrir um negócio, embora as taxas de juros sejam altíssimas, chegando a 50% ao mês por empréstimos informais”, relata Matías Mora, cientista político e morador de Fiorito. Ele criou o termo “manteros digitais” para descrever a venda de produtos por redes sociais e aplicativos, uma atividade que, embora seja uma forma de sobrevivência, traz desgaste emocional e físico às famílias.

Impacto da crise na vida social e política

O fenômeno de venda informal não começou com o atual governo, mas se agravou com a crise e a inflação persistente. Na feira de Fiorito, o cheiro de assados misturado ao odor do lixo evidencia o clima de dificuldades enfrentadas pelos moradores. Entre as próximas eleições legislativas, os moradores também enfrentam uma realidade de baixo apoio ao governo, com milei tendo apenas 16% dos votos na região em setembro, em uma trajetória distante do apoio conquistado na eleição presidencial de 2023.

Para o professor e cientista político Matías Mora, a situação se assemelha aos momentos turbulentos de 2001, refletindo uma crise social profunda. “As pessoas usam a criatividade e as estratégias de sobrevivência, mas tudo isso tem alto custo para sua saúde mental e física”, conclui Mora nesta análise do cenário argentino.

O país continuará enfrentando desafios enquanto a população busca alternativas para driblar a inflação e o elevado endividamento, em um contexto de instabilidade política e econômica crescente.

Fonte

Com informações do Jornal Diário do Povo

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