Transição energética na América Latina precisa contemplar pobreza e gênero
Apesar de a Agência Internacional de Energia estimar que 97% da população da América Latina e do Caribe tenha acesso à eletricidade, a realidade revela desigualdades profundas. Em áreas rurais e comunidades indígenas, milhões ainda vivem sem conexão formal à rede elétrica ou enfrentam serviços precários e tarifas elevadas.
Pobreza energética e desigualdades na região
Estudos mostram que quase 17 milhões de latino-americanos, principalmente em zonas rurais, ainda não possuem eletricidade, enquanto grande parte da população que está conectada enfrenta apagões e altos custos de energia. Além disso, cerca de 75 milhões de pessoas, ou 11% da população, dependem da biomassa para cozinhar, o que aumenta os riscos à saúde, especialmente para mulheres e crianças.
Segundo o livro “Energy Poverty, Justice and Gender in Latin America”, a pobreza energética é resultado de desigualdades estruturais e não pode ser resolvida apenas com infraestrutura. A relação entre energia, gênero e desigualdade reforça que as mulheres rurais são as mais afetadas, dedicando horas à coleta de lenha e enfrentando riscos de violência e problemas de saúde devido à poluição doméstica.
Desafios e contradições na transição energética
Na região, o discurso predominante sobre energia renovável é influenciado por interesses do Norte Global e de corporações multinacionais. Projetos eólicos no Brasil e México, por exemplo, costumam gerar tensões com comunidades locais, enquanto a exploração de lítio responde às demandas internacionais, sem uma estratégia de desenvolvimento sustentável.
Para que a transição seja justa, a América Latina precisa promover políticas industriais que incentivem a produção local de tecnologias, fortaleçam capacidades nacionais e criem empregos de qualidade. A guerra tarifária dos Estados Unidos, comandada por Donald Trump, exemplifica a necessidade de uma visão independente de desenvolvimento produtivo para evitar a dependência tecnológica e econômica do Sul Global.
Construindo uma agenda de justiça energética
A região deve repensar sua governança energética, garantindo maior participação das comunidades nos projetos e discutindo o impacto no mercado de trabalho. Cooperações descentralizadas e modelos de gestão participativa podem contribuir para ampliar o acesso a uma energia mais justa e acessível.
Segundo o livro, é fundamental compreender as dimensões estruturais que envolvem a pobreza energética na América Latina, como a disparidade entre áreas urbanas e rurais, os efeitos da queima de biomassa na saúde, os altos custos da energia e as desigualdades de gênero persistentes. Sem uma abordagem que envolva justiça social e soberania energética, a transição energética na região não será verdadeiramente justa ou sustentável.
Impacto político e social da transição
O processo de transição energética na América Latina é, sobretudo, político. É necessário que a sociedade, acadêmicos e governos trabalhem conjuntamente para identificar mecanismos de exclusão e propor alternativas. Adaptar o setor energético às necessidades locais, promovendo a participação social, é o caminho para uma transformação que seja democrática e inclusiva.
O livro busca contribuir para esse debate ao apresentar uma análise crítica das desigualdades energéticas e propor caminhos para uma transição justa, que atenda às necessidades sociais e respeite as especificidades de nossa região. Sem justiça social e soberania, a transição energética na América Latina permanece incompleta.
Com informações do Jornal Diário do Povo
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