Quem financia a agricultura sustentável no Brasil

O desenvolvimento de práticas agropecuárias sustentáveis no Brasil tem sido impulsionado, sobretudo, pelo crédito rural, que responde por mais de metade dos recursos destinados à agricultura de baixo carbono no país. Apesar dos avanços, ainda há obstáculos para ampliar o acesso a esses financiamentos, especialmente para pequenos produtores e comunidades tradicionais.

Quem banca a agricultura sustentável no Brasil

Segundo dados da ONG Climate Policy Initiative, o crédito rural representa cerca de 58% do financiamento climático para o uso da terra no Brasil, direcionado para técnicas como plantio direto, agroecologia e recuperação de pastagens degradadas. O Plano Safra 2024/25 disponibiliza R$ 69,2 bilhões para esses investimentos, mas eles correspondem a apenas 23,2% do total de crédito rural liberado no período.

O governo federal oferece linhas específicas, como o RenovAgro e o Pronaf Floresta, que atendem pequenos produtores, contudo, a maioria dos recursos ainda é direcionada a médios e grandes agricultores, o que limita a inclusão de comunidades tradicionais e agricultores familiares.

Desafios do acesso ao crédito para pequenos produtores

Um dos maiores obstáculos para ampliar o financiamento sustentável no Brasil é a dificuldade dos pequenos produtores de acessar bancos e recursos. Além da insuficiência de recursos, há uma indisposição por parte das instituições financeiras, que priorizam projetos de grande porte devido aos custos e à burocracia.

Além disso, muitos agricultores desconhecem as linhas de crédito ou sequer possuem documentos básicos, como RG e CPF, dificultando sua inserção no sistema formal. Para enfrentar essas barreiras, organizações como o Instituto Conexões Sustentáveis (Conexsus) desenvolvem iniciativas de capacitação, como o projeto CredAmbiental, que treina moradores das próprias comunidades para atuarem como “ativadores de crédito”.

Um exemplo de sucesso dessa abordagem ocorreu na comunidade indígena Tupinambá de Ilhéus (BA), onde o acesso ao Pronaf Floresta permitiu o cultivo de cacau e a recuperação ambiental da Mata Atlântica. Segundo a ONG, 98% dos participantes do projeto estão em dia com os empréstimos, mostrando que o apoio técnico e a capacitação fazem diferença.

O papel da filantropia e dos fundos climáticos

Para além do crédito rural, investimentos de filantropia e fundos não reembolsáveis representam uma parcela menor do financiamento climático, mas de grande impacto social e ambiental. O Fundo Casa Socioambiental, por exemplo, capta recursos internacionais de fundações para financiar projetos de sustentabilidade, especialmente em comunidades tradicionais.

O Fundo Amazônia, criado em 2008 e retomado em 2023, busca financiar ações de combate ao desmatamento e conservação da Amazônia Legal, além de apoiar projetos de sistemas alimentares sustentáveis. Outros instrumentos, como o Fundo Clima, têm maior foco em mitigação e adaptação, mas sua maior parte — cerca de 99% — consiste em empréstimos, com pouco recurso não reembolsável.

Perspectivas e próximos passos

Especialistas alertam que, embora o Brasil tenha avançado na implementação de financiamentos sustentáveis, é necessário ampliar o volume de recursos destinados às comunidades mais vulneráveis. Investimentos diretos, sem a obrigatoriedade de reembolso, podem potencializar a inclusão social e ambiental, completando o acesso ao crédito com doações e incentivos públicos e privados.

Enquanto os países discutem na COP 30 em Belém como mobilizar os trilhões de dólares necessários globalmente, o Brasil já trilha caminhos internos para ampliar esse financiamento. Segundo a London School of Economics, países emergentes e em desenvolvimento precisarão de cerca de US$ 3,5 trilhões por ano até 2035 para cumprir metas de transição climática, compensando a dívida histórica dos países desenvolvidos, considerados “devedores climáticos”.

Com informações do Jornal Diário do Povo

Share this content:

Publicar comentário