Autismo na adolescência exige atenção para isolamento, saúde mental e risco de invisibilidade social

A adolescência já costuma ser uma fase marcada por inseguranças, transformações emocionais e necessidade de aceitação social. Para adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), no entanto, esse período pode se tornar ainda mais complexo, silencioso e emocionalmente desgastante. O aumento das exigências sociais, das cobranças emocionais e das interações em grupo faz com que muitos jovens autistas enfrentem sofrimento psíquico intenso, isolamento e dificuldades profundas de pertencimento.

Segundo a psicóloga clínica Sirlene Ferreira, especialista em desenvolvimento infantil e adolescente, muitos jovens autistas conseguem passar despercebidos na infância, especialmente aqueles considerados nível 1 de suporte. Porém, na adolescência, as dificuldades sociais tornam-se mais evidentes e emocionalmente impactantes. “Na infância, muitas diferenças ainda são vistas como traços de personalidade. Já na adolescência, quando os vínculos sociais passam a ter um peso muito maior, o adolescente percebe que não consegue se conectar da mesma forma que os outros. Isso pode gerar sofrimento intenso, baixa autoestima, ansiedade, crises emocionais e até quadros depressivos”, explica.

A especialista alerta que muitos adolescentes dentro do espectro acabam desenvolvendo mecanismos de camuflagem social para tentar se adaptar aos grupos. Eles observam comportamentos, imitam expressões e tentam esconder desconfortos sensoriais ou dificuldades de interação para serem aceitos. Esse esforço constante de adaptação pode gerar exaustão emocional. “O adolescente autista frequentemente vive um desgaste silencioso. Ele tenta corresponder socialmente, mas muitas vezes não consegue sustentar emocionalmente esse esforço. Isso pode levar ao isolamento, ao esgotamento psicológico e à sensação permanente de inadequação”, afirma Sirlene Ferreira.

Outro ponto de atenção é o crescimento dos casos de ansiedade, automutilação, crises de pânico e depressão entre adolescentes neurodivergentes. A psicóloga explica que o bullying, a exclusão social e a dificuldade de interpretação das relações interpessoais tornam esses jovens mais vulneráveis emocionalmente.

Além das dificuldades sociais, muitos adolescentes autistas também enfrentam desafios relacionados à sensibilidade sensorial. Ambientes escolares barulhentos, excesso de estímulos, mudanças bruscas de rotina e pressão acadêmica podem provocar sobrecarga emocional e episódios de desregulação.

Para Sirlene Ferreira, ainda existe pouco preparo social e educacional para acolher adolescentes neurodivergentes de forma adequada. “Muitas vezes esse jovem não é agressivo, rebelde ou desinteressado. Ele está sobrecarregado emocionalmente, tentando sobreviver em ambientes que exigem uma forma de interação que para ele pode ser extremamente difícil”, destaca.

A psicóloga defende que o acolhimento familiar, o suporte psicológico e a construção de ambientes mais empáticos são fundamentais nesse processo. Segundo ela, é preciso abandonar a ideia de que inclusão significa apenas permitir presença física em determinados espaços. “Inclusão é pertencimento. É garantir que esse adolescente seja respeitado na sua forma de existir, de sentir e de se comunicar. O autista não precisa aprender a ser outra pessoa para ser aceito”, finaliza.

Sobre Sirlene Ferreira

Sirlene Ferreira é psicóloga clínica com 26 anos de experiência, graduada pela Unicapital, com pós-graduação em Psicanálise em Saúde pelo Hospital Israelita Albert Einstein e MBA em Gestão de Pessoas pela FGV. Mãe neurodivergente, alia vivência pessoal e atuação profissional no trabalho voltado ao desenvolvimento humano, ao autismo e às neurodivergências. Atua na clínica com base nos conceitos da psicanálise e da neurodivergência, além de prestar consultoria em gestão de pessoas, treinamentos e palestras para médias e grandes empresas. Também trabalha em escolas como psicóloga e é proprietária do Instituto Sirlene Ferreira e da Clínica Conecta ABA Incluir Brincando, especializada em autismo e desenvolvimento infantil.
Instagram: @conectaabaoficial / @institutosirleneferreira

Fonte: Ascom

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