Cortes obrigatórios na geração de energia ameaçam investimentos renováveis no Brasil
A oferta de energia tem superado a demanda do país, causando cortes frequentes nas fontes solar e eólica, uma situação que deve persistir até 2035, segundo especialistas. A restrição ocorre devido ao desequilíbrio no Sistema Interligado Nacional (SIN), que enfrenta dificuldades técnicas para desligar termelétricas e hidrelétricas imediatamente, levando ao corte em fontes com maior flexibilidade, como solar e eólica.
Impactos dos cortes na geração de energia solar e eólica
De janeiro a agosto de 2025, o corte obrigatório de energia renovável atingiu 18,5% do total das fontes, causando prejuízos que já levam empresas a suspender investimentos. Segundo levantamento da Volt Robotics, foram 4,3 mil GWh deixados de ser gerados — volume 230% superior ao registrado em todo 2024 e equivalente ao consumo mensal do Paraná.
Dados do Itaú BBA indicam que os cortes em eólicas e solares chegaram a 26,4% em agosto, aumento de 85% em relação ao mesmo mês de 2024. A consultoria BTG Pactual também confirma essa alta, enquanto associações como Absolar e Abeeólica apontam que as perdas financeiras já chegam a R$ 6,6 bilhões nos dois anos, com crescimento de 36% em relação ao ano passado.
Especialistas alertam que os cortes tendem a aumentar nos próximos anos, dificultando o planejamento de novas instalações e impactando economias locais e o setor de geração de energia limpa. Roberto Colindres, CEO da Rio Energy, destaca que projetos de grande porte, como um solar de 400 MW na Bahia, foram adiados ou cancelados devido aos custos elevados decorrentes dos cortes.
Desafios técnicos e financeiros do setor
Empresa que opera parques eólicos e solares enfrenta dificuldades como a necessidade de comprar energia no mercado livre para cumprir contratos, o que gera prejuízos e inviabiliza investimentos. Segundo Rodrigo Sauaia, presidente da Abeeólica, em projetos com menos de um ano de operação, cortes podem reduzir a geração em até 70%, comprometendo contratos e financiamentos de longo prazo.
Para Edvaldo Santana, ex-diretor da Aneel, a situação deve se manter até 2035, com um aumento paulatino na intensidade dos cortes, chegando a cerca de 30% até 2029. Ele aponta que a falta de planejamento na expansão da transmissão e a ineficiência da rede elétrica agravaram o problema, que também é alimentado pela inadimplência e pelo aumento de microgeração distribuída via painéis solares residenciais.
Soluções e perspectivas futuras
Governo e setor discutem alternativas tais como a expansão da malha de transmissão, o reforço na infraestrutura de linhas e a implementação de sistemas de armazenamento de energia com baterias, considerados essenciais para mitigar os cortes. Luiz Carlos Pereira, professor da Unicamp, reforça que é necessária uma revisão profunda na infraestrutura do sistema elétrico devido ao crescimento da geração renovável variável.
Opções como o estímulo à atividade econômica em horários de menor demanda, além do incentivo ao armazenamento de energia, podem ajudar a reduzir o impacto dos curtailments. A proposta do Ministério de Minas e Energia inclui ainda a elaboração de diagnósticos e a priorização de obras que aumentem a confiabilidade da rede elétrica.
Entretanto, a pressão das empresas e do setor para que os custos desses problemas sejam repassados aos consumidores ainda está em discussão. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) declarou que o tema está em consulta pública, e que os pedidos de transferência de custos ainda não foram acolhidos pela diretoria. Uma nova reunião com o Operador Nacional do Sistema (ONS) e distribuidoras foi agendada para debater mecanismos de controle e soluções definitivas.
O quadro atual evidencia uma contradição entre o avanço das fontes renováveis e os desafios de integração ao sistema de transmissão, ameaçando o futuro do setor no Brasil. A expectativa é de que os cortes se mantenham e precisem de medidas estruturais para garantir um ambiente mais sustentável e previsível para investimentos.
Para mais informações, confira o artigo original no O Globo.
Com informações do Jornal Diário do Povo
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