Socorro aos Correios pode agravar rombo nas contas públicas, alertam especialistas

Enquanto os Correios não realizarem uma reestruturação, especialistas ouvidos pelo O Globo afirmam que o Tesouro Nacional continuará arcando com os prejuízos, aumentando o rombo nas contas públicas. A situação reflete um problema de longo prazo que, sem medidas eficientes, tende a se tornar recorrente, pressionando ainda mais o orçamento do governo.

Risco de efeito cascata nas finanças públicas

Segundo Armando Castelar, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV), o maior perigo é a continuidade do apoio financeiro ao status atual, o que preserva o ciclo de prejuízos. “O grande risco é dar o socorro, empurrar com a barriga, e estar na mesma situação daqui a um ano, um ano e meio”, alerta Castelar, lembrando a proximidade das eleições de 2026.

A necessidade de uma reestruturação

Para o especialista, qualquer aporte de recursos públicos deve estar condicionado a uma reestruturação profunda do setor. Isso envolve mudanças que tornem os Correios mais eficientes e sustentáveis a longo prazo, evitando que o custo do apoio governamental se torne um fardo permanente.

Impactos na economia e na política fiscal

De acordo com Raul Velloso, consultor especializado em contas públicas, a saída de curto prazo mais provável é mesmo um socorro do Tesouro. Caso contrário, os Correios enfrentariam o risco de não pagar fornecedores e atrasar salários e aposentadorias.

“Imagina o caos que seria? O Lula não vai dar calote em funcionário público”, afirma Velloso, destacando o compromisso do governo com os servidores. No entanto, essa solução pode aprofundar o desequilíbrio fiscal, agravado pelo envelhecimento da população, que eleva os gastos com Previdência e reforça o desafio fiscal do país.

Histórico de tentativas de privatização

O governo Jair Bolsonaro tentou avançar com a privatização dos Correios, mas o processo foi interrompido com a retomada do PT ao Palácio do Planalto em 2023. O projeto de privatização chegou a ser elaborado pelo BNDES, que planejava transformar a estatal em uma gigante de entregas expressas, concorrente de multinacionais como FedEx e DHL, além de integrar o comércio eletrônico.

A privatização envolveria uma concessão onde a empresa compradora assumiria a operação dos serviços postais essenciais, como entrega de correspondências e encomendas não urgentes, mediante a criação de um marco legal específico. Entretanto, o projeto foi abandonado após a mudança política e a suspensão do programa de desestatizações em 2023.

Plano de fechamento de agências e fundo de imóveis

Os Correios também planejaram o fechamento de 700 agências e a venda de imóveis, buscando reduzir custos e tentar sair da crise. A estratégia envolvia a venda da infraestrutura física a operadoras privadas, que, ao longo da concessão, lucrariam com o comércio eletrônico para compensar atividades menos rentáveis. Contudo, esses planos também foram impactados pelo cenário político e pela crise de confiança no setor.

Privatizações e futuro dos Correios

Na época, o projeto de privatização foi considerado viável, com estudos indicando que a concessão poderia melhorar a eficiência e fortalecer a competitividade no setor logístico. No entanto, a retomada do controle estatal e a suspensão do processo indicam que a questão ainda é uma pendência no debate político e econômico do país.

Segundo informações do governo, embora o BNDES não esteja atualmente envolvido em projetos de privatização ou concessão dos Correios, o banco de fomento mantém sua atuação voltada para projetos de infraestrutura, sem participar diretamente de processos de desestatização.

Perspectivas de longo prazo

Especialistas enfatizam que a questão dos Correios retrata um dilema maior de gestão e sustentabilidade das estatais no Brasil. Sem reformas estruturais, o apoio financeiro contínuo sobrecarregará o orçamento do governo, dificultando investimentos em áreas fundamentais como saúde, educação e infraestrutura. A solução passa por um compromisso político forte com a reestruturação do setor, para evitar que o apoio financeiro se torne uma rotina insustentável.

Com informações do Jornal Diário do Povo

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