Agro brasileiro na COP30: discurso verde e o desmonte das leis ambientais
No bairro de Nazaré, em Belém, a noite de novembro foi marcada por celebrações entre representantes do agronegócio e entidades ligadas ao setor. Poucos dias após o encerramento da COP30, a impressão era de que o setor agropecuário brasileiro havia conquistado uma imagem positiva internacional, apresentando práticas sustentáveis e uma narrativa de solução para a crise climática. Porém, ações recentes no Congresso e mudanças na legislação ambiental apontam para uma realidade mais complexa e contraditória.
O papel do setor na COP30 e a narrativa do “agro tropical”
Durante a conferência da ONU, o setor agro demonstrou esforços em mostrar uma imagem de sustentabilidade e inovação. O espaço Agrizone, montado no campus da Embrapa Amazônia Oriental, foi uma vitrine de boas práticas, como sistemas integrados de lavoura, pecuária e floresta (ILPF) e plantações com tecnolgia de baixo carbono. “Mostramos que a agricultura tropical é parte da solução”, afirmou Bruno Lucchi, diretor técnico da CNA.
Segundo relatos de figuras como Roberto Rodrigues, enviado especial do setor na COP, a agricultura brasileira foi admirada e respeitada na conferência, reforçando a ideia de que o Brasil possui um diferencial de sustentabilidade incorporado ao seu DNA. Essa narrativa foi fundamental para blindar o setor de críticas internacionais e fortalecer sua posição no debate climático.
Contradições: desperdício de oportunidade e retrocessos ambientais
Apesar do discurso de sustentabilidade, o setor não hesitou em apoiar a aprovação do Projeto de Lei da Devastação, que altera o licenciamento ambiental no país. Essa legislação dispensa a necessidade de licenciamento para atividades de agricultura e pecuária, mesmo sem validação do Cadastro Ambiental Rural (CAR), e retira proteção de biomas como a Mata Atlântica.
Rodrigo Agostinho, presidente do Ibama, criticou a medida: “Vai dificultar a fiscalização e o cumprimento das leis ambientais, além de comprometer ações de monitoramento e combate ao desmatamento”.
Impacto na proteção de povos tradicionais e áreas indígenas
Na sequência, o Congresso acelerou a aprovação de uma proposta que altera a Constituição para estabelecer um marco temporal para a demarcação de terras indígenas. A medida tem forte apoio da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), que busca ampliar a liberação de áreas para o agronegócio, mesmo com a contestação de tribunais superiores.
Essa estratégia, segundo críticos, pode reforçar um ciclo de desmatamento e conflitos fundiários, colocando em risco o equilíbrio ambiental e os direitos das populações tradicionais.
Desafios e limites do discurso sustentável do agro brasileiro
Especialistas destacam que há uma lacuna de dados científicos que comprove a efetividade das práticas sustentáveis adotadas por produtores nacionais, dificultando avaliações precisas de sua contribuição para a redução de emissões de gases de efeito estufa. A falta de monitoramento consistente compromete os esforços de “tropicalizar” as métricas internacionais, que muitas vezes subestimam o potencial de captura de carbono pelo Brasil.
Apesar disso, setores ligados ao agronegócio continuam investindo na narrativa de um “agro tropical” inovador, capaz de ser modelo global de produção sustentável. “A COP foi uma plataforma para mostrar nossa tecnologia e potencial de absorção de carbono”, afirmou Gilberto Tomazoni, CEO da JBS.
Perspectivas futuras
Conforme avaliam analistas, o setor agro tenta consolidar sua imagem de solução ambiental, enquanto implementa no Congresso ações que fragilizam as proteções ambientais e os direitos indígenas. Essa contradição revela a dificuldade de alinhar interesses econômicos e ambientais na agenda do setor.
As próximas etapas dependem de uma monitoria mais rigorosa e de uma política pública capaz de consolidar práticas realmente sustentáveis, enquanto o governo busca equilibrar desenvolvimento econômico e conservação. A insistência do agro em disputar o “espaco verde” na narrativa global mostra que o debate climático no Brasil ainda está longe de um entendimento unificado.
Com informações do Jornal Diário do Povo
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