Ruha Benjamin: tecnologia, desigualdade social e justiça inevitavelmente se cruzam
A socióloga americana Ruha Benjamin, especialista em estudos afro-americanos, afirmou que os algoritmos usados na tecnologia carregam séculos de injustiça, do colonialismo à segregação. Durante sua participação na Festa Literária das Periferias (Flup), no Rio de Janeiro, ela destacou a importância da justiça algorítmica na desconstrução de sistemas opressores e na redistribuição de poder.
Justiça algorítmica como ferramenta de transformação social
Segundo Ruha, “justiça (algorítmica) significa desmontar sistemas opressores, não apenas torná-los menos enviesados. Trata-se de redistribuir o poder de imaginar e moldar o futuro”. Para ela, a tecnologia deve ser usada para combater desigualdades, não para perpetuá-las, e eventos como a Flup ajudam a ampliar esse debate além da elite técnica.
Autora premiada de obras como Race After Technology (2019), Viral Justice (2022) e Imagination: A Manifesto (2024), Ruha reforça que inovação tecnológica e desigualdade caminham juntas, e que a imaginação crítica — ou seja, questionar a própria narrativa do desenvolvimento — é fundamental na formação de uma sociedade mais justa.
Os vieses dos algoritmos e seu impacto social
Para a pesquisadora, “os algoritmos não são neutros, eles refletem valores e ideologias humanas. São espelhos do mundo real, treinados com dados que carregam o peso de séculos de injustiça”. Ela explica que identificar esses vieses requer perguntas críticas: quem criou os sistemas? Quais dados foram usados? Para quem esses sistemas foram feitos?
Ela destaca que o combate ao racismo embutido nas tecnologias exige transparência e desmontar a “caixa-preta” dessas ferramentas, promovendo uma análise crítica de seus insumos e objetivos. Além disso, Ruha afirma que “a justiça algorítmica começa quando reconhecemos que a tecnologia é produto de valores sociais, muitas vezes das classes mais poderosas”.
Desafios e possibilidades de uma transformação estrutural
Questionada sobre se as grandes empresas de tecnologia podem promover uma mudança real, Ruha responde que “essa mudança dificilmente virá de dentro delas. É preciso força coletiva, regulação e resistência social”. Movimentos populares, como a campanha Ban the Scan em Nova York, ilustram o potencial de organização na luta por justiça digital.
Ela reforça ainda que as iniciativas corporativas, muitas vezes simbólicas, não substituem a necessidade de reavaliar os objetivos reais da inovação tecnológica. A transformação, na perspectiva de Ruha, exige uma ruptura com o modelo de exploração e uma valorização de sistemas que incorporem conhecimentos ancestrais e formas de vida comunitárias.
A educação crítica e o papel da imaginação na construção de futuros justos
Na visão da socióloga, cultivar uma imaginação crítica é questionar as utopias tecnológicas dominantes e entender a história das tecnologias como parte de processos de opressão. Na educação, isso implica ensinar os estudantes a interrogar quem criou as tecnologias que usam, por que valores elas carregam e quem são seus beneficiários e prejudicados.
Ela aponta que uma formação técnica integrada às humanidades é essencial para desenvolver profissionais conscientes de seus impactos sociais e éticos. Além disso, argumenta que a ficção científica e a especulação podem ser ferramentas pedagógicas poderosas para imaginar emancipações possíveis.
Dados justos e o risco de vigilância racializada
Ruha alerta que, especialmente em crises de saúde, os dados podem ser usados como armas, reforçando desigualdades e perpetuando a vigilância. “Dado justo” deve começar antes mesmo da tecnologia, questionando os dados utilizados, sua origem e seu propósito — principalmente em contextos de vulnerabilidade social.
Ela critica a lógica de “eficiência” que transforma cidadãos em pontos de dados para controle, reforçando a necessidade de governanças democráticas e limites à vigilância, como a implementação de moratórias sobre tecnologias invasivas, como o reconhecimento facial.
O papel dos eventos culturais na promoção do diálogo sobre justiça social
Para Ruha, encontros culturais como a Flup são fundamentais para ampliar o debate além da esfera técnica. Essas ocasiões estimulam a imaginação coletiva e a reflexão sobre outras possibilidades de futuro, que escapam às limitações das soluções convencionais. Ela destaca que a cultura é uma ferramenta poderosa para contrabalançar a visão tecnocrática do progresso.
Ela conclui que “colocar literatura, arte e cultura em diálogo com a ciência e a tecnologia mostra que o futuro pode ser reescrito, reinventado. A imaginação abundante é essencial para criar caminhos mais justos e diversos”.
Para mais detalhes da entrevista, acesse esta fonte.
Com informações do Jornal Diário do Povo
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