Bolsa brasileira encolhe com ausência de novas empresas há quatro anos

A ausência de novas empresas entrando na Bolsa brasileira há quatro anos tem levado o mercado de ações do país a um cenário de estagnação e retração. Apesar da valorização de 24% do Ibovespa neste ano, o número de companhias que abriram capital caiu drasticamente: 36 empresas deixaram de listar suas ações desde 2021, período em que o mercado encolheu e se tornou menos atrativo para novos negócios.

Retirada de companhias e volume de negociações reduzido

Somente em 2025, nove empresas decidiram tirar seus papéis de circulação da Bolsa de São Paulo, a B3, o que reforça a tendência de saída do mercado de ações. Além disso, algumas companhias optaram por recomprar suas próprias ações, contribuindo para o menor volume de papéis negociados na plataforma.

Razões para o fechamento de capital e recompra de ações

O fechamento de capital, feito via oferta pública de aquisição (OPA), ocorre quando o acionista controlador compra ações de minoritários para consolidar o controle ou simplificar a estrutura societária. Desde 2019, essa operação drenou mais de R$ 40 bilhões do mercado, considerando o valor de mercado das empresas no momento da retirada, segundo levantamento do Globo com dados da Bloomberg. Desde o início de 2023, outros R$ 75 bilhões em ações foram retirados de circulação pelo Banco Itaú BBA.

Analistas apontam que o principal fator por trás dessas operações é o aumento da taxa básica de juros (Selic), atualmente em 15% ao ano, que torna os investimentos em renda fixa mais atraentes que os de renda variável. Como resultado, muitas empresas preferem recomprar suas ações ou fechar o capital, ao invés de buscar investidores no mercado de ações.

Impacto do cenário macroeconômico

Raphael Figueredo, estrategista de ações da XP, explica que o mercado como um todo perdeu “gordura” e passou do músculo ao osso, devido aos juros elevados. Para ele, a disposição dos investidores diminui ainda mais quando o valor das ações está abaixo de seu potencial real, o que estimula recompra de papéis pela própria companhia ou investidor interessado em adquirir o controle da firma.

O diretor financeiro da B3, André Milanez, reforça essa visão, dizendo que, em um momento de juros altos, fica mais difícil encontrar investidores dispostos a investir na Bolsa. “O momento torna mais difícil para as companhias encontrarem investidores dispostos a investir nesse tipo de classe de ativos”, afirmou.

Movimentos de empresas tradicionais e saída do mercado

Grandes nomes do mercado têm anunciado fechamento de capital, como a varejista Carrefour Brasil, que se tornou uma subsidiária integral da matriz europeia após comprar as ações remanescentes no Brasil, e a companhia aérea Gol, que foi à Bolsa, mas optou por sair após dificuldades financeiras e recuperação judicial. Além disso, a controladora da Abra, que detinha 80% da companhia aérea via recuperação judicial, decidiu fechar seu capital no Brasil e abrir uma nova operação nos Estados Unidos, junto à Avianca.

Neste ano, também marcaram presença nesse movimento a Azul, com acordo de recuperação, e o banco digital BTG Pactual, dono do banco Pan, além de outras empresas de setores variados, que buscam alternativas fora da Bolsa brasileira. Segundo fontes de mercado, a saída de companhias pode se intensificar com novas regulações, que tornaram os processos de OPAs mais simples e menos custosos, segundo Gustavo Rebello, sócio do escritório Machado Meyer.

Cenário internacional e influência na Bolsa brasileira

Por outro lado, o mercado externo mostra atratividade para empresas brasileiras, que aproveitam os preços descontados para buscar financiamento e investimento no exterior. Anderson Brito, do UBS BB, destaca que empresas controladas por estrangeiros, como os americanos e europeus, aproveitam as condições favoráveis para tomar empréstimos lá fora e adquirir ativos no Brasil — contribuindo para a valorização do Ibovespa, enquanto o interesse doméstico pela Bolsa diminui.

Antes, momentos de forte alta do Ibovespa também foram marcados por muitas saídas de companhias, como entre 2015 e 2016, e de 2007 a 2008, quando houve várias OPAs em meio às crises econômicas globais.

Reformas e o futuro da Bolsa brasileira

Medidas recentes, como o lançamento do Regime Fácil pela B3, que oferece regras mais flexíveis para pequenas empresas, e a simplificação na realização de OPAs, tentam estimular o mercado de capitais. No entanto, a continuidade da alta taxa de juros e a preferência por renda fixa ainda representam obstáculos à retomada do ingresso de novas companhias na Bolsa.

Gustavo Rebello avalia que, se essa condição persistir, o Brasil pode até ver uma exportação de seu mercado de ações, com empresas buscando abrir capital ou migrando para bolsas estrangeiras. “Se o cenário macroeconômico não melhorar, é provável que a Bolsa brasileira perca ainda mais espaço”, alerta.

Com informações do Jornal Diário do Povo

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