Tarifas de Trump na África do Sul ameaçam o setor agrícola e a economia local

As tarifas impostas pelos Estados Unidos continuam a afetar significativamente a agricultura na África do Sul, especialmente setores ligados às exportações de frutas e produtos agrícolas essenciais. O governo sul-africano estima que cerca de 4% das exportações agrícolas do país, o equivalente a aproximadamente US$ 600 milhões, destinam-se ao mercado americano, segundo a Câmara de Agricultura local.

Impacto nas exportações agrícolas sul-africanas

Produtos como cítricos, macadâmias, abacates e vinhos espumantes beneficiados por isenções tarifárias devido à Lei de Crescimento e Oportunidades para a África (AGOA) estão entre os mais afetados. O vinho branco espumante El Cap Classique, elaborado pelo método “champenoise”, é um exemplo de produto que vinha se beneficiando dessas vantagens até a crescente adoção de tarifas de 30% pelo governo americano.

O produtor de vinhos Graham Beck, que exporta cerca de 15% de sua produção para os EUA, está preocupado com o futuro. O diretor-geral Pieter Ferreira afirmou: “Precisávamos ganhar tempo e focar em ter um pouco mais de estoque que nos permitisse chegar ao fim do ano sem afetar nossos preços, embora o cenário para 2026 seja de incerteza.”

Consequências para os agricultores e o impacto social

Com as tarifas, as relações comerciais mais favoráveis à África do Sul vêm sendo prejudicadas, especialmente em regiões como Citrusdal, a 200 quilômetros da Cidade do Cabo, onde produtores apostaram fortemente no mercado americano graças às condições favoráveis oferecidas pela AGOA. Gerrit van der Merwe, proprietário de uma plantação de 1.000 hectares, destacou: “Hoje, essa região depende de 25% a 30% do seu negócio voltado para os EUA, nossa produção referência.”

Porém, o aumento de tarifas ameaça a sustentabilidade dessas pequenas comunidades rurais. Van der Merwe alertou: “Se reduzirmos 100 hectares, no próximo ano haverá 200 pessoas procurando emprego em Citrusdal. Isso é um impacto colossal para uma cidade com menos de 10 mil habitantes, altamente dependente da agricultura.”

Desafios econômicos e sociais colocados pelas tarifas

Especialistas alertam que o elevado desemprego, que atinge quase 33% na África do Sul, pode piorar com o aumento das tarifas, colocando em risco cerca de 100 mil postos de trabalho. Lesetja Kganyago, chefe do banco central, afirmou: “O impacto sobre a agricultura pode ser devastador, principalmente para o setor de cítricos, que emprega muitos trabalhadores pouco qualificados.”

Além disso, a expectativa de uma possível queda nas exportações pode gerar uma crise econômica mais ampla, afetando pequenos comerciantes, serviços locais e toda a cadeia produtiva dessas regiões rurais, que vivem de uma economia baseada na agricultura e na exportação.

Contexto político e econômico internacional

Os Estados Unidos têm adotado medidas protecionistas sob a administração de Donald Trump, incluindo tarifas que podem chegar a 250% sobre produtos farmacêuticos, além de tarifar projetos agrícolas africanos. Trump também criticou duramente as políticas de Pretória, acusando o país de ter “políticas ruins” e alegando que há “muita gente sendo assassinada”, numa referência aos agricultores descendentes de europeus, principalmente africâners.

Por sua vez, autoridades sul-africanas e analistas rejeitam essas alegações, reiterando que as tarifas penalizam toda a economia agrícola do país. Pieter Ferreira afirmou: “Se Trump pensa que o sofrimento dos agricultores é uma questão racial, está equivocado. O que ele faz é penalizar o setor com tarifas e prejudicar nossas comunidades rurais, que refletem a diversidade que construímos.”

Perspectivas futuras

Analistas preveem que as tensões comerciais podem agravar ainda mais a crise social na África do Sul, aumentando o desemprego e dificultando a recuperação econômica. Especialistas indicam que o setor agrícola precisa de estratégias robustas de defesa e diversificação de mercados para evitar prejuízos futuros maiores, especialmente diante das incertezas globais.

Enquanto isso, setores agrícolas na África do Sul continuam a buscar alternativas para se manter competitivos, enfrentando os desafios de um cenário internacional cada vez mais hostil às dificuldades impostas pelas tarifas americanas.

Com informações do Jornal Diário do Povo

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