Impacto do aumento de juros na concessão de crédito e no consumo das famílias
O aumento das taxas de juros pelo Banco Central influencia diretamente as condições de crédito, impactando a atividade econômica e a inflação. Apesar do encarecimento do crédito ser rápido e direto, seu efeito na concessão de empréstimos, que é o objetivo da política monetária, é mais lento e indireto, levando pelo menos um trimestre para se consolidar, como já vem ocorrendo com maior intensidade.
Concessões de crédito: crescimento versus contenção
Segundo análise de especialistas, não se trata de uma contracção das concessões, mas de um esforço para conter seu crescimento. Registros históricos indicam que somente em crises econômicas exógenas, como a pandemia e a recessão de 2014-2016, o setor de crédito enfrentou verdadeiras contrações, consequência do colapso do setor de construção e escândalos de corrupção.
Resiliência de linhas de crédito específicas
Nem todas as linhas de crédito respondem igualmente ao aumento de juros. O cartão de crédito à vista, por exemplo, que não depende de novos contratos, apresenta comportamento mais estável e cresce acima das demais, com avanço de 12,1% no trimestre encerrado em outubro, em relação ao mesmo período do ano passado. Em contrapartida, o crescimento do crédito livre total para pessoa física (PF) foi de 11%, com 5,3 pontos percentuais derivados do avanço do cartão à vista.
Desaceleração no crédito para pessoa física
Apesar do crescimento do crédito, há sinais de desaceleração. O crédito consignado do setor privado, impulsionado por medidas do governo para facilitar o acesso ao crédito com descontos em folha, cresce de forma moderada. Contudo, o segmento total de empréstimos consignados cresceu apenas 2%, enquanto o setor privado viu um aumento de 260% na mesma comparação, atitude parcialmente explicada pelas medidas de controle do teto de juros pelo Conselho Nacional de Previdência Social e pelas ações contra fraudes no INSS.
Uso de linhas de crédito e dificuldades financeiras
Apesar do aumento do crédito, nem todo esse aumento traduz-se em maior consumo. O uso elevado do cheque especial, com juros médios de 15% ao ano, e do cartão de crédito rotativo, com taxas de aproximadamente 450% ao ano, apontam dificuldades financeiras das famílias. Essas modalidades apresentam inadimplência bastante elevada: 15% ao ano no cheque especial e 60% no cartão rotativo, contra 6,7% no crédito livre total da PF, indicando provável contenção do consumo.
Perspectivas sobre o comportamento do crédito e do consumo
Especula-se que o aumento do uso dessas linhas, mesmo com alta inadimplência, possa estar relacionado ao impacto da alta da Selic, embora mudanças recentes no mercado de crédito, com maior inclusão financeira e oferta por novas instituições, também contribuam para essa dinâmica. A maior oferta de crédito às classes populares, impulsionada pelo cartão de crédito entre 2021 e 2023, aumenta o impacto dos juros na economia, especialmente por parte de populações com menor educação financeira, que enfrentam juros abusivos na linha rotativa.
Inadimplência elevada e o impacto na economia
Dados recentes indicam que 48,5% da população adulta está inadimplente, totalizando 79,2 milhões de pessoas, recorde desde o início da série em 2016. Além disso, 53% da inadimplência decorre de atividades não financeiras, como contas de serviços públicos, reforçando o quadro de dificuldades financeiras das famílias.
Perspectivas de consumo e o cenário econômico
Apesar de sinais de contenção no consumo, especialmente nos gastos com bens manufaturados e serviços direcionados às famílias, o mercado de trabalho mantém números favoráveis. Ainda assim, o consumo das famílias permanece quase estável nos últimos meses e não deve melhorar tão cedo, refletindo uma combinação de alta das taxas de juros, inadimplência elevada e dificuldades financeiras gerais.
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Com informações do Jornal Diário do Povo
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