EUA fecham canais de negociação com o Brasil em meio a tensões tarifárias

Os Estados Unidos encerraram canais de negociação com o Brasil para intensificar a pressão sobre o país, impondo tarifas elevadas e dificultando o diálogo, avalia o economista Márcio Sette Fortes, ex-executivo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e professor do Ibmec, em entrevista ao GLOBO. Para Fortes, a estratégia busca forçar o Brasil a ceder em pontos considerados relevantes pelos americanos e ocorre num contexto de escalada de tensões comerciais e políticas.

Contexto e motivações por trás da tarifa alta

Segundo Fortes, a imposição de tarifas de até 50% tem motivações que vão além do comercial, envolvendo também interesses políticos e ideológicos. Ele destaca que o protagonismo do Brasil no Brics e a proximidade com a China preocupam a administração de Donald Trump, que busca consolidar uma posição de força frente ao avanço do país na América do Sul. Além disso, o advogado aponta que a disputa por recursos estratégicos, como terras-raras, e a tentativa de limitar o uso de moedas alternativas ao dólar também pesam nesse embate.

Impedimentos para negociações próximas ao prazo de 6 de agosto

Fortes acredita que, apesar do cenário de tensão, não há perspectivas de um acordo em curto prazo. O prazo de 6 de agosto, quando as tarifas devem ser aplicadas, serve principalmente para demonstrar que a medida vai entrar em vigor, enquanto o setor produtivo brasileiro pressiona por negociações mais intensas. A postura dos EUA, no entanto, revela pouca disposição de abrir canais no momento e busca que o Brasil ofereça concessões adicionais para evitar impactos mais severos na economia nacional.

O que os EUA querem em troca?

De acordo com o economista, os interesses dos Estados Unidos incluem exportar etanol, restringir a dependência de terras-raras da China e garantir o acesso aos produtos brasileiros, como aço, alumínio e café, em condições favoráveis. Além disso, há uma preocupação crescente com o uso de moedas digitais, como as stablecoins, que podem substituir o dólar em transações internacionais, reforçando a tentativa americana de manter o domínio no sistema financeiro global.

Possibilidade de acordos até o prazo final

Fortes questiona a viabilidade de um acordo até 6 de agosto, ressaltando que é pouco provável que as negociações avancem nesse curto período. Ele destaca que a imposição das tarifas extremas serve mais para colocar pressão sobre o Brasil, cujo impacto na exportação de diversos setores é elevado, especialmente após a tentativa de proteger certos produtos, como o suco de laranja e o café, com exceções subjetivas.

Fortes e o fechamento dos canais diplomáticos

Segundo o especialista, as portas de diálogo entre Brasil e EUA estão praticamente fechadas. Ainda que existam encontros de alto nível, como o do secretário de Estado Marco Rubio com o ministro Mauro Vieira, o clima é de tensão, sem espaço visível para negociações construtivas. A ausência de um embaixador americano no Brasil reforça o distanciamento e a falta de prioridade dada pelos americanos ao relacionamento bilateral.

Impactos políticos e a relação com o Brics

Fortes aponta que a insatisfação dos Estados Unidos com o posicionamento do Brasil no âmbito do Brics e seu relacionamento com a China e Rússia alimentam essa postura mais agressiva. A possibilidade de criar uma moeda própria do grupo, contra o dólar, ainda é incipiente e irrita Washington. Além disso, o alinhamento ideológico do Brasil com o bloco concede uma justificativa política para as tarifas, que também refletem um embate ideológico e econômico de larga escala.

Considerações finais sobre o cenário internacional

O especialista alerta que o impacto dessas tarifas e o fechamento dos canais diplomáticos podem reforçar um ciclo de hostilidades e dificuldades na relação comercial bilateral. Ele ressalta a vulnerabilidade do Brasil diante da política tarifária dos EUA, que também alterou suas próprias tarifas em relação a outros países, como o Canadá, e usa ações jurídicas, como a Lei Magnitsky, para legitimar suas pressões.

Para Fortes, a estratégia americana busca visar concessões específicas do Brasil, especialmente em setores estratégicos, e demonstra o quão delicadas e complexas são as atuais negociações internacionais, marcadas por interesses econômicos, políticos e de segurança.

Para mais informações, acesse a matéria completa em O Globo.

Com informações do Jornal Diário do Povo

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