Argentina reduz consumo de carne: tradição diante de mudanças culturais

A tradição de apreciar churrasco, símbolo da cultura argentina, enfrenta uma transformação profunda em 2024, com recorde de consumo mínimo de carne. Segundo dados do Instituto de Promoção da Carne Bovina na Argentina (IPCVA), cada habitante consumiu cerca de 47 kg em 2024, emparelhando o país com o Uruguai e marcando uma queda significativa em relação às décadas anteriores.

Declínio no consumo de carne na Argentina e seus motivos

Após anos de alta, o consumo de carne na Argentina começou a declinar, especialmente desde os anos 2000, quando atingiu quase 100 kg por habitante ao ano no fim dos anos 1950. Em 2025, houve uma ligeira recuperação para 50 kg, impulsionada pela baixa da inflação, mas a tendência é de queda contínua. Voltando a tempos mais distantes, o consumo era de 170 kg anuais no século XIX, marcado pela abundância e acessibilidade.

Mudanças culturais e ambientais

O churrasco, antes um elemento central na vida social argentina, agora é visto de forma diferente. Alejandro Pérez, 39 anos, declarou à AFP que atualmente come carne duas ou três vezes por semana, diferente do cotidiano de décadas passadas. Segundo Graciela Ramos, moradores de Buenos Aires comemoram a tradição em festivais de churrasco, mas diferentes fatores estão influenciando essa mudança cultural, incluindo o aumento do preço da carne, preocupações ambientais e saúde.

Especialistas como o historiador Felipe Pigna destacam que, no início do século XIX, a carne era consumida por todas as classes sociais, em grandes quantidades e a preços acessíveis. A introdução da refrigeração e do pastoreio na imensidão da Pampa transformou o setor, tornando a carne argentina uma marca mundial, exportada especialmente para países beligerantes durante as guerras mundiais.

Questões econômicas e novas tendências alimentares

Hoje, o peso econômico da carne ainda é forte, embora o setor perceba a mudança de perfil do consumidor. Segundo a Secretaria de Agricultura, Pecuária e Pesca, a produção de carne em 2024 foi de 3,1 milhões de toneladas, com quase um terço destinada à exportação. A China lidera a demanda internacional, comprando 70% das exportações argentinas, com consumo per capita na Ásia variando de 3 a 5 kg ao ano, revela George Breitschmitt, do IPCVA.

Em paralelo, há uma crescente adesão ao vegetarianismo e ao veganismo. Em 2020, 12% da população argentina se declarava vegana ou vegetariana, e o presidente da União Vegana Argentina (UVA), Manuel Alfredo Martí, lembra que há 25 anos encontrar alguém com esse perfil era raro. Hoje, produtos veganos e vegetarianos fazem parte do cotidiano, e estudantes de nutrição especializam-se na área.

Perspectivas de mercado e desafios futuros

Apesar da queda no consumo doméstico, o setor ainda considera a Argentina uma potência mundial da carne, com forte presença no mercado global. A exportação deve manter sua relevância, sobretudo na Ásia, onde há espaço para ampliar a presença. Segundo Breitschmitt, a Argentina ainda é reconhecida pela qualidade da carne, mas os concorrentes estão aprimorando seus produtos, o que exige inovação e adaptação.

Com mudanças de hábitos, a cadeia produtiva precisa se reinventar para equilibrar tradição, saúde pública e sustentabilidade. O impacto na cultura local é claro: o churrasco, que sempre foi símbolo de convivência, agora convive com a necessidade de novas abordagens alimentares e econômicas.

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Com informações do Jornal Diário do Povo

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