Acordo UE-Mercosul: resistência francesa e peso simbólico

José Alfredo Graça Lima, embaixador brasileiro com vasta experiência em negociações comerciais, destaca que o recente acordo entre a União Europeia e o Mercosul tem menos intensidade econômica do que se imaginava inicialmente e maior valor simbólico. Para ele, a resistência da França foi um obstáculo recorrente ao longo de décadas.

Origens e percurso das negociações UE-Mercosul

Graça Lima relembra que as tratativas começaram em 1999, em uma reunião entre a América do Sul e a Comunidade Econômica Europeia no Rio de Janeiro. Apesar de o bloco europeu já ter iniciado diálogos com outros países sul-americanos, ainda faltava o envolvimento do Mercosul. Naquele momento, surgiu a ideia, não de um livre-comércio, mas de um projeto de associação, marcando o início de um processo longo e complexo.

Resistência francesa e negociações

Durante suas atuações, Graça Lima participou de encontros com autoridades europeias, como em Paris com o ex-ministro das Relações Exteriores, Felipe Lampreia. Na época, Paris não demonstrava interesse em avançar nas negociações, que só ganharam ritmo após a criação de um Comitê de Negociações Comerciais, em 2000. A resistência francesa, especialmente no setor agrícola, sempre foi o principal obstáculo, devido à política agrícola comum da UE, que é altamente protecionista.

Impasses na União Europeia

Segundo o embaixador, a dificuldade sempre residiu na oferta agrícola da Europa, que permanece insuficiente para o Brasil. Isso se deve aos interesses políticos e eleitorais, pois países como França tentam preservar seus preços agrícolas, mesmo que isso signifique limitar o livre comércio. Apesar desses obstáculos, a coesão do Mercosul sempre se manteve ao longo do tempo, diferentemente da UE, onde muitas propostas chegaram a ser travadas no Conselho Europeu.

Avanços e momentos marcantes

Após o período de estagnação, Graça Lima destaca que houve avanços relevantes a partir de 2019, com a elaboração de um texto aceitável, que contempla concessões brasileiras apesar da oferta agrícola europeia ainda ser considerada insuficiente. Ele lembra de um episódio delicado, ocorrido nos anos finais de sua atuação, quando foi informado de sua substituição na liderança das negociações em Bruxelas — uma mudança inesperada que gerou perplexidade até mesmo entre os interlocutores europeus.

Impactos econômicos e benefícios

Segundo Graça Lima, institucionalmente, o acordo pode trazer previsibilidade para investidores, especialmente em um contexto de instabilidade internacional. Contudo, não se trata de um pacto que amplie significativamente o comércio multilateral, pois envolve apenas duas regiões, podendo deslocar fluxos comerciais, mas não expandi-los. Em termos de ganhos econômicos, o acordo deve gerar benefícios principalmente para consumidores de alta renda no Brasil, com possíveis reduções de preços de produtos importados como vinho, queijo e automóveis, mas pouco ou nenhum impacto para a maioria da população de baixa renda.

Perspectivas futuras e expectativas

Graça Lima reforça que, apesar de o acordo ser mais simbólico do que mercadológico neste momento, ele simboliza a perseverança de uma negociação que se iniciou há décadas. O governo brasileiro espera que o tratado entre em vigor ainda neste ano, conforme anunciou recentemente o ministro do Desenvolvimento, Geraldo Alckmin. Além disso, o andamento das negociações mostra que avanços importantes foram conquistados, especialmente a partir de 2019, com concessões reais do Brasil diante da resistência europeia.

Para mais informações, acesse o link completo da reportagem.

Com informações do Jornal Diário do Povo

Share this content:

Publicar comentário