Indústria do plasma: benefícios, riscos e desigualdades

Laura Rohe, atualmente enfermeira em Omaha, nos Estados Unidos, começou a receber infusões mensais de imunoglobulina aos 14 anos após ser diagnosticada com imunodeficiência comum variável. Essa terapia, feita de plasma sanguíneo humano, transformou sua vida ao permitir que ela se tornasse uma pessoa mais saudável e com expectativa de vida semelhante à de qualquer outra pessoa. No entanto, o crescimento da indústria do plasma traz à tona debates sobre os efeitos a longo prazo, desigualdades sociais e a dependência de doadores de baixa renda.

O papel do plasma na medicina moderna

As formulações de plasma, que contêm anticorpos e outras proteínas, são essenciais no tratamento de condições como hemofilia, distúrbios imunológicos e queimaduras. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, muitas dessas terapias estão na Lista de Medicamentos Essenciais, reconhecendo sua importância mundial. Os avanços na área elevaram a expectativa de vida de pacientes com doenças previamente fatais, consolidando o plasma como um insumo médico indispensável.

O mercado em expansão e as questões éticas

O mercado global de produtos derivados de plasma deve atingir quase US$ 46 bilhões em 2027, com crescimento de 38% nos próximos cinco anos, aponta a empresa de análise BCC Research. Quatro grandes multinacionais dominam cerca de 85% da coleta nos Estados Unidos, onde o sistema de pagamento a doadores é legal e altamente lucrativo. Essa prática, contudo, enfrenta críticas por sua influência sobre populações vulneráveis.

Dependência dos doadores de baixa renda

A maior parte do plasma nos EUA vem de cerca de três milhões de doadores que vendem seu sangue para obter uma renda extra. Pesquisadores alertam que essa dependência pode reproduzir desigualdades, pois muitos desses doadores vivem em bairros pobres e enfrentam dificuldades financeiras, recorrendo a empréstimos ou casas de penhores para continuar doando. Em Nova York e na Califórnia, por exemplo, centros de coleta estão próximos de lojas de empréstimos e casas de penhores — locais com fortes vínculos com populações vulneráveis.

Segundo Emily Gallagher, professora de Finanças da Universidade do Colorado, os EUA se tornaram um “lugar perfeito” para a coleta remunerada de plasma devido à menor regulamentação e à elevada vulnerabilidade financeira de seus doadores. Apesar da importância do plasma para salvar vidas, há preocupação com os riscos à saúde dos doadores frequentes, que podem sofrer fadiga, perda de proteínas e maiores chances de infecções, além de possíveis efeitos de longo prazo ainda pouco estudados.

Desafios e controvérsias globais

Embora países como a Dinamarca e a Itália sejam autossuficientes em imunoglobulina intravenosa usando doadores voluntários, a maior parte do plasma mundial ainda depende de doadores remunerados, principalmente nos EUA. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que a venda de sangue é uma das poucas opções de renda para pessoas de baixa renda, que frequentemente recorrem a serviços financeiros não tradicionais, como casas de penhores e agiotas, para sobreviver.

As discussões também envolvem questões éticas e de saúde pública, já que o aumento da coleta remunerada pode ampliar desigualdades e colocar em risco a saúde dos doadores. Especialistas alertam que a dependência de populações menos favorecidas para a obtenção de plasma pode perpetuar desigualdades sociais e de saúde, além de potencializar riscos de saúde a longo prazo, já pouco estudados.

Perspectivas futuras e regulamentação

Apesar dos debates, o setor de terapia com plasma continua a prosperar, com empresas como a australiana CSL Behring, a japonesa Takeda e a suíça Octapharma registrando lucros bilionários. A produção de medicamentos derivada do plasma, que pode levar até um ano, é altamente controlada, com rígidos procedimentos de triagem e teste para garantir a segurança. Mesmo assim, a questão da dependência de doadores de baixa renda permanece controversa.

Na tentativa de equilibrar segurança e acessibilidade, países como a Bélgica conseguiram ampliar as doações voluntárias e superar a escassez, demonstrando que é possível evitar a remuneração sem comprometer o fornecimento. Contudo, estudos indicam que o aumento na demanda global leva à intensificação da exploração de populações vulneráveis, alimentando uma indústria milionária baseada na desigualdade social.

Leah Lowe, de 58 anos, exemplifica uma realidade comum entre doadores, que muitas vezes estão em situação financeira precária e veem na doação de plasma uma maneira de pagar contas ou evitar dívidas. “É mais ou menos um trabalho”, diz ela, reconhecendo que a prática, embora beneficie vidas, reforça desigualdades e riscos à saúde dos próprios doadores.

Para especialistas, o desafio é garantir que a coleta de plasma seja feita de maneira ética e segura, sem explorar populações vulneráveis ou comprometer a saúde de quem doa. A crescente demanda e os lucros expressivos associados à indústria do plasma exigem uma reflexão sobre seu impacto social e as medidas necessárias para promover uma prática mais justa e responsável.

Para saber mais, acesse o artigo completo.

Tags: saúde, plasma, doadores, indústria farmacêutica, desigualdade

Com informações do Jornal Diário do Povo

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