Cansaço digital faz pessoas reverem relação com telas, notícias e produtividade

Depois de anos de hiperconectividade, notificações, excesso de informação e exposição constante nas redes sociais, começa a ganhar força uma mudança na relação das pessoas com a tecnologia. Em vez de permanecerem disponíveis o tempo todo, acompanharem cada atualização ou consumirem conteúdos escolhidos por algoritmos, muitas pessoas passaram a valorizar experiências presenciais, atividades analógicas, relações mais próximas e momentos sem intermediação tecnológica.

A tendência aparece em análises de comportamento para 2026, que apontam para uma valorização crescente da presença física, da autenticidade e de uma relação mais consciente com a tecnologia. Mais do que abandonar as telas, a discussão envolve recuperar a capacidade de escolher onde colocar atenção e tempo.

Para a psicóloga Sirlene Ferreira, esse comportamento pode ser compreendido como uma tentativa de recuperar espaços de escolha e presença em uma rotina marcada por estímulos permanentes. “Não se trata de abandonar a tecnologia. O ponto é perceber quando ela deixou de ser uma ferramenta e passou a organizar o nosso tempo, nossa atenção e até a forma como nos relacionamos. Estar presente em uma conversa, fazer uma atividade sem olhar o celular ou simplesmente ter um momento de silêncio também são formas de cuidado”, afirma.

A fadiga, porém, não está restrita às redes sociais. Ela também aparece na relação com o próprio noticiário. O Digital News Report 2026, do Reuters Institute for the Study of Journalism, mostra que 42% das pessoas entrevistadas nos mercados pesquisados dizem evitar notícias às vezes ou frequentemente. Em 2017, quando o instituto começou a acompanhar esse indicador, eram 29%. O relatório também aponta queda no interesse geral pelas notícias e identifica um cenário de maior ansiedade, desengajamento e ceticismo diante das turbulências políticas, econômicas e tecnológicas.

Essa sobrecarga informacional pode fazer com que algumas pessoas reduzam voluntariamente o contato com notícias, especialmente quando percebem o fluxo como excessivo, negativo ou difícil de acompanhar. Pesquisas anteriores do Reuters Institute também identificaram entre os motivos para evitar notícias o impacto negativo sobre o humor, vida pessoal, carreira e a sensação de que não há muito que o indivíduo possa fazer diante dos problemas apresentados. “Não precisamos escolher entre estar informados e preservar a nossa saúde emocional. Precisamos encontrar uma forma de consumir informação que não nos coloque em estado permanente de alerta. Ter horários para acompanhar as notícias, escolher fontes confiáveis e perceber quando é hora de interromper o fluxo também são formas de autocuidado”, explica Sirlene.

O excesso de conexão também pode ultrapassar os limites do ambiente digital e interferir na forma como as pessoas trabalham e se relacionam. Na carreira, a disponibilidade permanente pode dificultar a concentração, fragmentar a atenção e criar a sensação de que é preciso responder imediatamente a mensagens, e-mails e demandas profissionais. Além disso, a exposição constante a opiniões e debates nas redes sociais pode levar a divergências no ambiente de trabalho, especialmente quando diferentes pontos de vista entram em choque. Em alguns casos, essas discordâncias podem gerar desconforto, tensão e até comprometer a qualidade das relações profissionais.

Na vida pessoal, a presença constante do celular pode interferir nas conversas, nos momentos de descanso e na qualidade do tempo compartilhado com familiares e amigos. “Quando a pessoa está fisicamente presente, mas continua mentalmente conectada ao trabalho, às redes sociais ou às notícias, ela pode perder justamente aquilo que o momento presencial oferece. Estabelecer limites não significa deixar de ser produtivo ou disponível, mas preservar espaços em que outras dimensões da vida também possam acontecer”, explica Sirlene.

A questão, portanto, não é simplesmente desligar o celular ou deixar de acompanhar o que acontece no mundo. É recuperar a possibilidade de escolher quando, como e quanto consumir. Em uma rotina na qual acontecimentos de diferentes partes do planeta chegam ao mesmo tempo à tela, estabelecer limites pode devolver espaço para aquilo que acontece perto de nós e para as relações que dependem da presença física.

Essa conexão humana passa, assim, a ganhar um valor que não pode ser reproduzido integralmente pelas telas. Conversas presenciais, atividades manuais, leitura, escrita, encontros familiares e experiências culturais podem funcionar como contraponto a uma rotina de estímulos contínuos. A própria literatura sobre uso de redes sociais e saúde mental indica que essa relação é complexa e depende de fatores como padrão de uso, contexto e qualidade das interações.

Ao mesmo tempo, a inteligência artificial acrescenta uma nova camada a essa discussão. A tecnologia já começa a fazer parte de processos relacionados à psicologia, inclusive na organização do trabalho clínico, na análise de dados e em ferramentas que podem auxiliar profissionais. O avanço, porém, também traz discussões sobre precisão, privacidade, transparência e os limites do uso da tecnologia na saúde.

De acordo com Sirlene, quanto mais recursos artificiais entram na rotina, maior pode ser a necessidade de preservar aquilo que depende da experiência humana. “A tecnologia pode ajudar muito, inclusive na área da saúde, mas ela não substitui a experiência de uma relação humana. Escuta, vínculo, contexto, subjetividade e percepção do outro continuam sendo fundamentais. Talvez por isso a autenticidade esteja ganhando tanto valor”, afirma.

Essa busca por autenticidade também aparece como reação à lógica da performance constante. Durante muito tempo, bem-estar foi associado à ideia de produzir mais, aproveitar melhor o tempo, melhorar o desempenho profissional e estar sempre evoluindo. Agora, cresce a discussão sobre limites, descanso e uma relação mais sustentável com as próprias exigências. O burnout se insere nesse cenário. A pressão permanente para responder mensagens, cumprir metas, manter produtividade e conciliar diferentes papéis pode contribuir para uma rotina de sobrecarga.

Para a psicóloga, estabelecer limites não significa falta de ambição ou comprometimento. “Precisamos recuperar a ideia de que descanso não é fracasso e que uma pessoa não precisa estar permanentemente disponível ou produtiva para ter valor. O cuidado psicológico também passa pela possibilidade de reconhecer limites antes que o corpo e a mente cobrem essa conta”, afirma.

A mudança, portanto, não representa necessariamente uma rejeição à tecnologia, trata-se de estabelecer uma relação mais consciente com ela. Em vez de simplesmente desconectar, a proposta é recuperar a capacidade de escolher quando estar online, quando estar offline e, principalmente, onde colocar a própria atenção.

SIRLENE FERREIRA é psicóloga, com 26 anos de experiência clínica. É formada pela Unicapital, pós-graduada em Psicanálise em Saúde pelo Hospital Israelita Albert Einstein e possui MBA em Gestão de Pessoas pela FGV. Atua também com desenvolvimento humano, neurodivergência, gestão de pessoas, treinamentos e palestras para empresas.

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